Câncer de Mama na gravidez

Autor: Maurício Magalhães Costa

Mestre e Doutor em Ginecologia pela UFRJ

Coordenador Científico do Serviço de Ginecologia do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho – UFRJ

Especialização em Oncologia Ginecológica no Radiumhemmet – Instituto Karolinska – Suécia

Diretor American Society of Breast Diseasese (ASBD) e Senology International Society (SIS)

Diretor Editorial do SIS Journal – Revista Eletrônica da SIS

Presidente da Federação Latino-Americana de Mastologia

Paula Saldanha

Residente de Mastologia do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho

O câncer de mama é a patologia maligna mais freqüente nos países desenvolvidos. Nos Estados Unidos, a segunda causa de morte por câncer, após o de pulmão. Estima-se que a região europeia possui 28% do total de casos no mundo. De 1950 á 1980 a mortalidade por câncer de mama aumentou em todos os países europeus, exceto Noruega e Suécia, e a partir de 1990 houve uma queda nesse crescimento chegando a uma diminuição de casos de mortes ( 14,74 por 100.00 em 1994 para 13,01 por 100.000 em 2009)(1) Observa-se aumento progressivo em sua incidência mesmo na América Latina. Estima-se que, em 2020, 70% dos casos novos serão em países emergentes(OMS).

A Organização Mundial de Saúde registrou, nas décadas de 60 e 70, aumento de 10 vezes nas taxas de incidência do câncer de mama feminino, ajustadas por idade nos diversos continentes e calcula-se uma elevação de 14,5% devido principalmente à perspectiva de maior longevidade da população neste período (Matias, 1994).

A maioria dos aumentos nas taxas de incidência era verificada em mulheres com mais de 50 anos, mas os índices cresceram em pacientes mais jovens. Essas modificações de incidência são atribuídas não só a fatores sócio-culturais, como também tem sido documentada a elevação no risco de mulheres migrantes de áreas de baixo-risco para as de alto risco. Esses estudos sugerem que os fatores ambientais têm substancial efeito no risco do câncer de mama (INCA,2011).

O câncer de mama associado à gravidez (CMG) é definido como aquele diagnosticado durante o período de gestação e também nos primeiros 12 meses após o parto. É achado pouco freqüente, porém de extrema gravidade. A doença põe em risco a vida da mãe e do concepto, e nos leva, maioria das vezes, a problemas de ordem clínica, ética e psicológica, assim como dúvidas quanto ao diagnóstico e tratamento.

Considerado como de prognóstico sombrio e de tratamento pouco eficaz graças ao agravamento promovido pela gestação, hoje é avaliado com menos pessimismo e estudado de forma mais clara baseada em dados menos alarmantes.

Histórico

Klotz, em 1869, fez a primeira citação a respeito do câncer de mama associado à gravidez. A partir desse marco, uma série de autores se dedicou ao estudo da doença, quase sempre ressaltando o péssimo prognóstico apresentado por essas pacientes.

Kilgores, em 1929, foi o primeiro a atribuir pouca importância ao período gestacional ou de lactação, se contrapondo à idéia do quadro invariavelmente desesperador da doença.

Em 1943, Haagensen & Stout acompanharam 29 casos de câncer de mama diagnosticados durante a gestação e puerpério, realizando 20 mastectomias radicais. Como não houve cura ou sobrevida longa, o CMG passou a ser considerado como critério de inoperabilidade.

Westberg, em 1946, avaliou 224 casos diagnosticados na Suécia como CMG. Concluiu que a gestação não influenciava no prognóstico e sim no retardo do diagnóstico. No mesmo estudo, observou que a interrupção da gestação não causava melhoras nas possibilidades de cura.

Em 1967, Haagensen (1943) reviu sua posição inicial em relação a inoperabilidade atribuída a esses casos. A partir daí a maior parte dos autores aponta em seus trabalhos que a evolução da doença depende muito mais do seu estadiamento e do comprometimento da axila, no momento do diagnóstico, do que da associação com a gestação ou a lactação.

Epidemiologia

Nos países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos, as cifras de incidência por câncer de mama variam de baixa a moderada (20 a 40 por 100.000 mulheres), com tendência a elevação. A incidência vem aumentando anualmente e o IARC estima em 120.000 novos casos por ano na América Latina. No Brasil, os coeficientes de câncer de mama em algumas regiões são próximos aos verificados em países desenvolvidos. este tipo de câncer também é o mais freqüente nas mulheres das regiões Sul (65/ 100.000), Centro-Oeste (48/ 100.000) e Nordeste (32/ 100.000). Na região Norte é o segundo tumor mais incidente (19/ 100.000) O maior coeficiente é encontrado em Porto Alegre (76,2/ 100.000). A seguir situam-se São Paulo (65,5/100.000) e Fortaleza (61,6/100.000). Segundo o Instituto Nacional do Câncer, número de casos novos de câncer de mama esperados para o Brasil em 2012 é de 52.680, com um risco estimado de 52 casos a cada 100 mil mulheres.

O câncer de mama associado à gravidez é, felizmente, bem pouco freqüente. Revendo a literatura mundial por período aproximado de 100 anos, White (1954), encontrou 2,8% de CMG em 45.000 casos avaliados. Estima-se um caso para cada 3000 gestações, segundo o NCI dos EUA ( PDQ – NIH, 2011) A incidência de câncer de mama associado á gestação é de aproximadamente 15 a 35 por 100.000 gestações, com um número maior de casos diagnosticados durante a gestação em comparação com o período pós-parto. (1 – 4). Essa incidência parece estar aumentando devido ao fato das mulheres atualmente estarem adiando a gestação.

Em 1983, Wallack reviu 32 séries de relatos de câncer de mama, encontrando de 0,2 a 3,8% de CMG. Referiu também a incidência de 10 a 39 casos por 100.000 nascimentos.

Câncer de mama é a neoplasia maligna mais comum na gravidez e período pós-parto. A idade média é entre 32 e 38 anos e com o adiamento das gestações, comum nos tempos atuais, espera-se aumento desta associação.

O caso de paciente mais jovem, 16 anos, foi relatado por Birks, em 1973. Richards, em 1984, referiu paciente de 18 anos com doença disseminada.

A princípio, em toda gestante que se apresente com adenocarcinoma metastático deve-se suspeitar inicialmente de um sítio primário localizado na mama.

Diagnóstico

O diagnóstico de CMG é sempre difícil e postergado. A turgência e as irregularidades no parênquima mamário durante esse período dificultam o exame clínico, retardando as indicações de biopsia e conseqüentemente o diagnóstico final. Max (1983), refere que o atraso médio na detecção da doença, durante a gestação, é de cinco a quinze meses em relação a pacientes não gestantes,e  isso causa um grave impacto , visto que um mês de atraso pode aumentar o risco de metástase linfonodal  de 1 a 2% ( Nettleton 1996). Esses achados poderiam ser minimizados se houvesse oportunidade de consultas pré-natais, onde se procederia a exame clínico mais acurado e se recomendaria a prática do auto-exame.

A realização da mamografia também parece não diminuir o retardo no diagnóstico. Em pacientes jovens, não gestantes, abaixo de 35 anos, a mamografia pode mostrar-se falso-negativa em até 50% dos casos. Esse dado parece mais elevado no caso de pacientes gestantes. A ultrassonografia também pode ser considerada valiosa no diagnóstico. Além de nos auxiliar na melhor caracterização do tumor mamário, pode ser útil na investigação de metástases abdominais.

Os exames que envolvem radiação, como as radiografias e cintilografias utilizadas no rastreamento de lesões à distância, são contra-indicadas na maior parte das vezes. Porém, acredita-se, que suas doses são abaixo do nível de perigo e parecem ser razoavelmente  seguras em mulheres grávidas. Se a cintilografia for essencial, ela pode ser empregada, mas é importante uma hidratação adequada e cateter de Foley vesical para prevenir retenção de irradiação.

A ressonancia magnética tem sido empregada durante a gestação e poderá ser indicada em casos que a ultrassonografia não seja conclusiva. Nenhum efeito nocivo foi encontrado, porém a National Radiological Protection Board  aconselha não ser utilizada no primeiro trimestre, já que não existem experiência suficientes para seu uso com segurança durante o período da organogênese.( Shellock 2004) . Em animais, o gadolineo mostrou efeitos teratogênicos, mas não há relatos em humanos (Leyendecker, 2004))

A punção por agulha fina também tem-se mostrado de valor no diagnóstico. Apesar de a citologia mamária ter sua especificidade diminuída durante a gestação e lactação, pelos fenômenos hiperplásicos e inflamatórios próprios do período, sua elevada sensibilidade pode nos alertar para a indicação da biopsia cirúrgica.

O diagnóstico definitivo virá somente com o exame histopatológico. A realização da biopsia cirúrgica durante a gestação pode ser feita com segurança, seja sob anestesia local ou geral, podendo ser utilizada a core biópsia ou mamotomia.

Em relação aos aspectos patológicos, a maior parte são carcinoma ductal infiltrante, assim como nas mulheres não grávidas, predominantemente pouco diferenciados, e diagnosticados em estágios mais avançados.  Receptores hormonais negativos e elevada incidência de superexpressão de HER2 ( human  epidermal growth fator receptor 2) também são encontrados com frequência. (  5 – 7)

Mulheres com história familiar importante ou portadoras de mutação genética BRCA1 e BRCA2 tem um risco maior de desenvolver câncer de mama mais jovens, período no qual a gestação é comum. Alguns estudos revelaram um comportamento diferenciado dessas mutações em relação á gravidez. Antoniou et al. compararam 457 portadoras que desenvolveram câncer com 332 portadoras que não desenvolveram. O fator protetor da gestação foi observado apenas naquelas com mais de 40 anos e a primeira gestação em idade mais avançada foi associada com aumento de risco em mutantes BRCA2, mas não em mutantes BRCA1.Culliname et al. avaliaram 1.260 multiparas portadoras de BRCA1 e BRCA2 em comparação com multíparas com ausência de mutação. Aquelas com BRCA1 apresentaram um menor risco de câncer de mama, enquanto que com mutação BRCA2 aparentemente aumentaram seu risco. Além disso, esse estudo observou ainda que portadoras de BRCA2 possuem aumento do nos 2 primeiros anos após o parto.(16)

Tratamento

O diagnóstico de câncer de mama durante a gravidez produz forte impacto emocional em todos os envolvidos, pois acomete pacientes jovens, em período especial de suas vidas.

É necessário, desde o início, uma avaliação multidisciplinar, com ênfase à assistência psicológica e várias questões se impõem: efeitos da terapêutica sobre feto, risco de continuar a gravidez e principalmente o prognóstico materno.

O câncer de mama, sobretudo quando em seus estágios iniciais, não interfere com o curso da gravidez, porém, nos estádios avançados, pode levar a caquexia que determina crescimento intra-uterino retardado e parto pretermo.

O tratamento de câncer de mama  durante a gravidez deve considerar a idade da gestação e o estádio da doença. Em linhas gerais, o tratamento segue a mesma orientação que os casos fora do ciclo gestacional, pois não há evidências de que o câncer de mama em gestantes seja biologicamente diferente do que em outras mulheres não-grávidas, na pré-menopausa. A interrupção da gravidez não melhora a sobrevida e em nosso meio só encontra amparo médico-legal nos casos de risco de vida materno comprovado. Os possíveis riscos teratogênicos da terapêutica, isoladamente, não justificam a interrupção.

TRATAMENTO CIRÚRGICO

Em 1943 Haagensen afirmou que “câncer de mama durante a gravidez e lactação é tão maligno e a cirurgia tão pouco curativa, que não via justificativa para sua indicação”. Naquela ocasião ele defendia a radioterapia paliativa como única terapêutica, apesar do risco fetal. Posteriormente Haagensen modificou seus critérios e passou a tratar cirurgicamente o câncer de mama  simultâneo à gestação.

A anestesia geral empregada na cirurgia é relativamente segura para a mãe e para o feto. Numerosos estudos indicam que não há aumento de mortalidade e que o risco de trabalho de parto prematuro, em procedimentos cirúrgicos extra-abdominais, é mínimo.

Atualmente, se não há evidência de doença metastática, o conceito terapêutico inicial é cirúrgico. A mastectomia radical modificada (MRM) é a técnica mais preconizada.

A cirurgia conservadora, mesmo em tumores pequenos, não é indicada por motivo da impossibilidade de associá-la à radioterapia; estudos de Gallenberg et al. (1989) e Willemse et al. (1990), comprovaram que seu adiamento diminui a sobrevida. Entretanto, em pacientes no 3º trimestre, com tumores menores que 4 cm e desejosas de tratamento conservador, é possível realizar a segmentectomia com dissecção axilar, após a interrupção da gravidez, e complementar com radioterapia.

Atualmente considera-se a possibilidade de utilizar a técnica do linfonodo sentinela com radiotraçador em tumores iniciais com axila clinicamente negativa (Mondi, 2007) . A radioatividade do procedimento e as alterações dos padrões linfáticos da mama durante a gestação devem ser avaliados.  O uso do corantes para a pesquisa do linfonodo sentinela ainda não foram testados em animais e humanos, e por isso deve ser evitado. Não é indicado em pacientes com menos de 30 semanas de gestação, e a lactação é contraindicada por alguns dias após o procedimento devido a excreção da substância radioativa coloide pelo leite materno. (Filippakis 2007)

As pacientes que têm doença inicialmente sistêmica podem ser submetidas à ressecção tumoral, com objetivo paliativo de citorredução. Os tumores localmente avançados e inflamatórios são tratados com uma combinação de quimioterapia, radioterapia e cirurgia. Nestes casos a cirurgia terá finalidade higiênica.

RADIOTERAPIA

A radioterapia deve ser desencorajada, exceto nos casos em que pode ser adiada para após o parto, pois a técnica padrão de irradiação do campo mamário é inaceitavelmente alta para o feto. Um tratamento completo irá expor o concepto a doses de 20 a 100 cGy, dependendo do campo e da altura uterina, e sabe-se que o risco de malformações aumenta quando a dose de irradiação é superior a 10 cGy (Gallenberg, 1989). A sensibilidade fetal máxima ocorre durante o período de organogênese, até a 20ª semana de gestação. Porém, no último trimestre, devido a proximidade do feto aos campos de radioterapia, há considerável risco de efeitos adversos. As sequelas da radioterapia são: perda de gestação; malformação; distúrbios do crescimento e desenvolvimento; efeitos  mutagênicos e carcinogênicos no feto (Dominici 2010)

QUIMIOTERAPIA

Os quimioterápicos antineoplásicos, tem como principal característica a ação sobre células em crescimento, ou seja, tecidos com uma fração de células em divisão são mais sensíveis. O embrião tem sua população celular em permanente expansão, tornando-o extremamente vulnerável.

O risco de teratogênese depende da época da gravidez em que é administrada a quimioterapia e o tipo de droga. As malformações mais freqüentes ocorrem em pacientes expostas a agentes alquilantes e antimetabólitos no primeiro trimestre da gestação. O 5-FU, metotrexate e 6-mercaptopurina são os quimioterápicos mais teratogênicos.

Os riscos da associação de quimioterapia com gravidez ainda não são claros. Muitos dos estudos foram realizados em animais de laboratório e os trabalhos em humanos restringiram-se aos efeitos imediatos, faltando assim informações sobre o risco futuro de neoplasias, desenvolvimento intelectual e fertilidade.

A quimioterapia poderá ser indicada nos casos de doença sistêmica localmente avançados/inflamatórios e adjuvante ao tratamento primário. Em todas as situações deverá ser avaliado o risco/benefício da administração dos quimioterápicos. Nos dois primeiros casos a quimioterapia é obrigatória, geralmente pré-operatória e associada à radioterapia. Há urgência de iniciar a terapêutica e qualquer adiamento poderá representar maior morbidade. Um atraso de 3 a 6 meses, pode aumentar o risco de metástase em 5-10%

( Nettleton 1996) . O cuidado com a mãe prevalece e o risco fetal é secundário, pois a vida materna está ameaçada. Nesta situação a interrupção da gravidez pode ser considerada.

A quimioterapia adjuvante está indicada em pacientes tratadas cirurgicamente e que apresentam maior risco de desenvolver metástases. São fatores de mau prognóstico: linfonodos comprometidos, tumor maior que 2 cm, receptores hormonais negativos, tumores indiferenciados e aneuplóides. A decisão de instituir a terapêutica deve ser discutida com a paciente e todos os riscos de malformações serem esclarecidos.

Os protocolos de quimioterapia em câncer de mama mais empregados são o ciclofosfamida/metotrexate/5-FU (CMF) e o 5-FU/adriamicina/ciclofosfamida (FAC). Nos casos em que se decida administrar a quimioterapia, o metotrexate e o 5-FU devem ser excluídos. Há estudos (Barni,1992) relatando que a administração semanal de doxorrubicina promoveu resultados satisfatórios sem riscos fetais adicionais de sofrimento ou malformações, quando administrados no 2o. e 3o. trimestre

A utilização de qualquer agente quimioterápico durante o primeiro trimestre da gravidez deve ser desencorajada. Seu uso no 2º e 3º trimestres provavelmente induz poucas anormalidades, mas novos estudos, acompanhados a longo prazo, precisam ser realizados. A quimioterapia, preferencialmente, deve ser adiada para depois do parto (Yang, 2006).

Em 2010, uma revisão na literatura avaliou 40 casos com administração de taxanos durante a gestação. Seu uso se demonstrou seguro quando utililizados no segundo e terceiro trimestre com pouca toxicidade materna, fetal e neonatal. (Mir 2010)

O Trastuzumab, Herceptin, é um anticorpo monoclonal humano que está indicado em tumores com amplificação ou superexpressão do oncogene HER-2. Há relatos de associação de Trastuzumab e gestação e o efeito encontrado foi uma oligohidramnia durante seu uso, sendo reversível após a suspensão. (Shrim,2008) .É contraindicado durante a gestação, podendo levar a hipoplasia pulmonar e morte neonatal. Também não deve ser usado em lactantes, contraindicando a amamentação por até 6 meses após a última dose (Zagouri 2013)

O lapatinib, um inibidor de tirosina-quinase que afeta  tanto no HER2/neu (erbB-2) como no receptor do fator de crescimento epitelial ( erbB-1), foi aprovado para uso em tumores com superexpressão do oncogene HER2 e que não obteve resposta satisfatória com o uso do Transtuzumab. Ainda não há estudos para seu uso seguro durante a gravidez e lactação.

HORMONIOTERAPIA

A gravidez pode diminuir os níveis de receptores hormonais no citoplasma das células do câncer de mama, culminando em resultados falso-negativos, porque os altos teores de estrogênio circulante, nas gestantes, causam translocação dos receptores dentro do núcleo e ocupam todos os citoplasmáticos.

A dificuldade de definir se o tumor é hormonial positivo ou negativo é mais um entrave à hormonioterapia, pois não sabemos se o tumor responderá ou não à manipulação hormonial. Em pacientes jovens, independente da gravidez, os tumores são geralmente indiferenciados e receptores hormoniais negativos.

Durante a gravidez poderia ser feita a ooforectomia e a administração de tamoxifeno. Ambos apresentam riscos para a gestação e não há trabalhos que evidenciem benefícios. É tratamento que deve ser restrito aos casos avançados e metastáticos, sem utilidade como terapia adjuvante.

Recomendações para tratamento de câncer de mama na gravidez (Tabela 1).

Estádios I e II

São tumores operáveis. A mastectomia radical modificada é a terapia de escolha. A ressecção segmentária com dissecção axilar e radioterapia será restrita aos tumores até 4 cm e diagnosticados próximo ao termo. Estudo do linfonodo sentinela poderá ser indicado quando a axila for clinicamente negativa.(Pandit-Taskar, 2004)

A quimioterapia adjuvante poderá ser administrada nas pacientes com linfonodos comprometidos, mas após a 20ª semana e sem agentes antimetabólitos (metotrexate e 5-FU). Preferencialmente será iniciada depois do parto.

Estádios III e IV

São tumores localmente avançados ou doença sistêmica. O tratamento inicial é clínico com quimioterapia e/ou hormonioterapia, podendo ser considerada a imunoterapia. A cirurgia indicada, mastectomia higiênica ou tumorectomia, dependerá da resposta ao tratamento clínico e radioterápico.

Resultados

Uma revisão da literatura antiga sobre câncer de mama na gravidez demonstra um pior prognóstico quando comparado com mulheres não-grávidas (Barnavon & Wallack, 1990). Estudos posteriores evidenciaram que comparando grupos de mesmo estadiamento os resultados foram semelhantes (Tabela I). A divergência está em que o diagnóstico do câncer de mama em gestantes é geralmente mais tardio e em estádios mais avançados (Nugent, 1985).

Petrek (1991), realizou estudo retrospectivo de mulheres grávidas com câncer de mama e comparou com grupo-testemunha, cruzando idade e estadiamento. Nugent (1985) também se associou a esse estudo e comparou grupos de pacientes com menos ou mais de 40 anos. O resultado demonstrou que a idade, mais que o fato de estar grávida, é o principal fator de mau prognóstico.

Efeitos sobre o feto e a gestação

O período embrionário dura até a 9ª semana de gestação, quando o embrião atinge 4 cm e a maior parte dos órgãos está em formação. A partir da 10ª semana se inicia o período fetal, que é caracterizado pelo crescimento e maturação das estruturas noviformadas. Agravos à gestação no período embrionário resultam em abortamento espontâneo espontâneo ou malformações significativas, enquanto, no período fetal, predominam deficiências do crescimento e desenvolvimento. A susceptibilidade a drogas teratogênicas e radiação diminui com a evolução da gravidez e torna-se mínima após a organogênese (20 semanas) (Garber, 1989 e Epstein, 2007).

Tabela 1 Taxa de sobrevivência de mulheres grávidas e não-grávidas abaixo de 40 anos     

com câncer de mama

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Sobrevivência (%)

                                                 ____________________________

Estadiamento                            Grávida                   Não-grávida                        p

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I                                                  4/4 (100)                59/84 (70)                        0,57

II                                               7/14 (50)               27/57 (48)                                1,0

III                                              0/1 (0)                   1/14 (7)                         1,0

Geral                                        11/19 (57)             87/155 (56)                       1,0

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Nugent (loc.cit.)

Metástases para o concepto são raras. Há, no momento, 52 casos relatados na literatura (diferentes origens), 45 para a placenta e 7 para o feto. Nenhum caso de metástase de câncer de mama para o feto, mas 4 para a placenta (Potter & Schoeneman, 1970).

Os estádios I e II não interferem com a evolução da gravidez. Nos casos avançados e metastáticos pode haver comprometimento do estado geral com caquexia e, conseqüentemente, crescimento intra-uterino retardado.

O tipo de parto não interfere na evolução da doença. Os critérios devem ser rigorosamente obstétricos.

Lactação

Não há evidências de que a supressão da lactação melhore o prognóstico de pacientes com câncer de mama no ciclo grávido-puerperal, porém existe tendência de suprimir a lactação pelo desconhecimento dos riscos da persistência do estímulo hormonial (Hoover, 1990).

Em duas situações a supressão é obrigatória: nos casos de cirurgia da mama no período puerperal e quando há administração de quimioterápicos, que podem ser secretados pelo leite e causar neutropenia no recém-nascido.

Alguns autores reconhecem o sinal de rejeição ao leite como um marcador tumoral de câncer de mama (Saber,1996). Ele é descrito como um sinal raro em que o lactente rejeita o leite materno de uma mama com câncer de mama oculto.

Fertilidade e gravidez subseqüente

O desenvolvimento de modernos tratamentos de tumores malignos vem permitindo longa sobrevivência e preservação da função gonadal ( Gerber, 2008).

O efeito da quimioterapia na função ovariana é similar ao da radioterapia e a probabilidade de insuficiência ovariana proporcional à dose acumulativa e à idade da paciente. As jovens são menos propensas a apresentar insuficiência ovariana permanente.

Muitas mulheres tratadas de câncer de mama desejam futura gravidez. Acreditava-se que gestações poderiam favorecer recidivas tumorais devido aos altos níveis hormonais, porém estudos de Souza (1986), Hoover (1990) e Vange (1991), comprovaram que uma nova prenhez não influencia no prognóstico. Petrek (1991) demonstrou maior sobrevida em grupo de pacientes que engravidaram do que em grupo-testemunha.

Embora gestação subseqüente não altere o prognóstico, recomenda-se que as pacientes evitem nova gravidez por 3 a 5 anos após o diagnóstico. O maior risco de recidiva ocorre nos dois primeiros anos e a recorrência do câncer em uma grávida seria uma dificuldade para a terapêutica.

Interrupção da gravidez

Interrupção da gravidez era rotineiramente indicada como parte do tratamento do câncer de mama, pois acreditava-se que os hormônios placentários estimulavam o crescimento das células tumorais. Além disso, há, na gravidez, alterações imunológicas que determinam diminuição da imunidade celular.

Estudos de Max et al. (1983), Ribeiro et al. (1986) e Hoover (1990), demonstraram que a interrupção da gestação não influi no prognóstico; atualmente ela está indicada apenas em casos em que haja risco de vida materna.

Conclusões

Alguns fatores foram apontados como responsáveis pelo mau prognóstico do câncer de mama associado à gravidez, entre eles, altos níveis hormonais, a vasidilatação sangüínea e linfática e a imunodeficiência própria da gestação. Atualmente, sabe-se que esse prognóstico não depende tanto da prenhez. Ele vai estar ligado, principalmente, ao estadiamento clínico da doença e à juventude dessas pacientes.

Em face de possibilidade de suspeita clínica de tumor mamário durante a gravidez e a lactação, não devemos jamais postergar o diagnóstico. A utilização da punção por agulha fina e a ultrassonografia podem ser úteis, porém, quando negativas, não excluem a necessidade da biopsia cirúrgica.

Uma vez diagnosticada a moléstia, seu estadiamento deve ser procedido com rapidez, sempre tendo em mente as dificuldades causadas pela gestação.

O tratamento freqüentemente se depara com entraves de ordem clínica e ética. A idade gestacional atua aí como fundamental nas nossas opções terapêuticas e constantemente modifica condutas e retarda procedimentos.

O tratamento cirúrgico pode ser realizado em qualquer fase da gravidez. A quimioterapia talvez possa ser efetuada no segundo ou terceiro trimestres. A radioterapia é reservada para o período pós-parto.

A interrupção da gestação não se mostra como colaboradora no tratamento, porém , sem dúvida, facilita a conduta terapêutica. Sua indicação deve ser cercada de muito equilíbrio e discutida abertamente com a paciente e sua família.

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