Câncer de Mama – Desafio do Mundo Moderno

Recentemente a revista TIME publicou interessante artigo sobre o aumento global da incidencia de câncer de mama. Doença que foi sempre mais comum em países ocidentais, passou a se frequentemente diagnosticada nos países orientais e, mesmo, africanos. Estima-se que serão diagnosticados 1.500.000 novos casos no mundo em 2014.

No Brasil serão 52.000 casos, um a cada 11 minutos, sendo a maior prevalencia nas regiões sul e sudeste. Há também um aumento em mulheres jovens.

Câncer de mama é uma doença de origem multifatorial. Estão envolvidos a predisposição genética, estilo de vida e fatores ambientais. As células mamárias e seu material genético estão expostas, continuamente, a fatores agressores externos como vírus, irradiação e substâncias tóxicas ambientais ( xenobióticos). Eles são capazes de induzir mutações no DNA celular, mas felizmente há mecanismos reparadores ( gens supressores) que restabelecem a integridade genética. Quando ocorrem mutações irreversíveis, o processo de malignização se inicia. Condições orgânicas como hormônios e sistema imunológico podem frear ou promover o crescimento destas células alteradas e, por fim, favorecer sua disseminação para outros orgãos.

A grande maioria dos casos (75%) de câncer de mama não tem histórico familiar. São chamados de esporádicos. Em 5% das pacientes há mutações dos gens BRCA1 e BRCA2 que conferem a estas famílias um risco bem elevado de desenvolvimento de novos casos.

Xenobióticos são substancias presentes no meio ambiente e que determinam danos genéticos. Nesta categoria estão os agrotóxicos e poluentes químicos que apresentam  propriedades bioquímicas semelhantes ao estrogênio ( Hormonio feminino), que ocasionam um estímulo hormonal adicional.

A evolução da sociedade moderna promoveu uma série de mudanças no corportamento feminino com repercussões biológicas, tais como: primeira menstruação mais precoce, menor número de gestações e tardias, menor tempo de amamentação, menopausa adiada. Todas estas condições levaram a mulher do século XIX que menstruava, em média, 50 vezes durante a vida, à mulher moderna que costuma ter 400 a 450 episódios. Estes ciclos contínuos promovem um bombardeio hormonal às mamas que leva a alterações proliferativas. A esta condição soma-se o fato que a mama só atinge sua maturidade após a primeira gestação completa. As mamas imaturas são mais suscetíveis a fatores carcinogênicos ambientais, aumentando seu risco.

Fatores hormonais externos como anticoncepcionais e terapia de reposição (TRH) também estão relacionados, principalmente se empregados na pós-menopausa. Em 2003, com os resultados do Estudo WHI nos EUA, que demonstraram um aumento de 40% do risco relativo de desenvolvimento do câncer de mama em usuárias de TRH, houve um declínio significativo de seu uso. Desde então o Instituto nacional do Câncer dos EUA (NCI) observou um decréscimo da  sua incidencia, que comprova esta associação.

A grande arma que dispomos para combater esta ameaça à mulher é a prevenção e o diagnóstico precoce. A prevenção requer um estilo de vida saudável com dieta balanceada, controle ponderal, e prática de exercícios físicos regulares. Novos medicamentos como os Moduladores Seletivos de Receptores Hormonais ( SERMs) foram recentemente aprovados pelo FDA (EUA) eANVISA ( Brasil) como substâncias capazes de reduzir em até 60% o câncer de mama em mulheres na pós-menopausa. Discute-se a indicação de mastectomia profilática e mesmo a remoção de ovários em mulheres de alto risco com mutações genéticas BRCA1 e BRCA2, mas esta decisão deve ser analisada por uma equipe interdisciplinar com mastologista, cirurgião plástico, geneticista, oncologista e psicólogo. Somente mulheres de altíssimo risco devem considerar esta possibilidade

Os métodos de imagem mamografia, ultrassonografia e ressonância magnética possibilitam diagnósticos cada vez mais precoces e consequentemente melhores resultados com maiores chances de cura. Mesmo em países desenvolvidos, como o Japão, o percentual de mulheres que seguem um programa de controle periódico com auto-exame das mamas, exame clínico e mamografia é baixo. No Brasil há  mamógrafos em 9% dos municípios e estima-se que apenas 25% da população esteja coberta por programa efetivo de prevenção.

A industrialização e urbanização brasileira trouxeram um aumento da incidência do câncer de mama. É muito importante que a sociedade através do governo, empresas privadas, ONGs e grupos de saúde promovam contínuo programa de educação comunitária e ofereçam à população condições de diagnóstico e tratamento adequado. Esta preocupação tem importância não só humanitária, mas também econômica, considerando que aumenta cada vez mais o papel da mulher como chefe de família e participação no mercado de trabalho.

O diagnóstico tardio do câncer de mama leva a tratamento mais mutiladores, onerosos e com resultados precários levando muitas mães a morte precoce e evitável, deixando, em suas famílias, um vazio irreparável.

O tratamento inicialmente é cirúrgico e sempre que possível utiliza-se o tratamento conservador ( preservador da mama). Nos casos em que não seja possível, realiza-se a mastectomia ( retirada total da mama), mas faz-se a cirurgia reconstrutora imediatamente.

O tratamento complementar com quimioterapia, hormonioterapia e/ou radioterapia seguirá critérios internacionais para garantir o máximo de segurança e lembre-se que com tratamento adequado, 90% das mulheres com câncer de mama inicial estarão curadas.

 

Maurício Magalhães Costa

Mestre e Doutor em Ginecologia pela UFRJ

Chefe do Setor de Oncologia Ginecológica do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho – UFRJ

Fellow da American Society of Breast Disease e Presidente da Federação latino-americana de Mastologia